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está cansado de viver mas não se apercebe, só nós, estrangeiros dele, o sabemos, nos encontrões súbitos da poesia, reconhecer. vai subindo a rua segurando um jornal, chorando papéis, fotografias, todo um corpo guardado sob um casaco, uma camisa, umas calças. as putas acenam-lhe e ele ignora-as, talvez noutra tarde, noutra noite. espera-o um jarro de flores com a água esverdeada, não se lembra de alguma vez as ter trocado, é possível que tenham morrido. o homem pergunta-se se as flores estão cansadas de viver mas, coitadas, nem se apercebam, só ele, estrangeiro delas, o note, numa angústia; bem vistas as coisas, é possível que as flores já estivessem mortas à partida, sem as suas raízes, apenas caule e pétalas e estames inúteis que nunca serão usados na polinização de outro universo. as putas acenam, só pétalas e estames, a rua afunila-se e fecha-se, o homem continua a sua história anónima, com muitas dores de dentes e de cabeça, para as quais toma medicamentos genéricos receitados pelo médico de família. |
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